Incidente | Jornal OSollo


Contos exigem uma certa consciência das próprias intenções, um certo estreitamento do foco. Vou dar um exemplo. Em uma tarde da década passada, estávamos a bordo de um avião da Air Europa com destino a Madrid quando, em pleno oceano Atlântico, um senhor sentado atrás de nossas poltronas sofreu um ataque cardíaco.
Rapidamente apareceram três médicos, que prestaram socorro, e após algum tempo ele se recuperou. Não tenho grande inclinação pela ficção, contento-me com a realidade objetiva — e também com a subjetiva. Descobri que ele era dono de farmácia.
Por sorte, a cura natural é inerente à estrutura e à função do organismo vivo: um dedo cortado cicatriza, um osso fraturado recompõe-se, uma infecção pode ser sanada espontaneamente. Os corpos não são como bolhas, que, uma vez estouradas, não podem mais ser unidas.
Aquele ataque foi um sinal para o homem que, justamente, iniciava suas férias. Pela breve conversa que tivemos, percebi que era um workaholic. Talvez o corpo apenas tivesse lembrado a ele que também precisava de descanso.
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Fonte: Jornal OSollo




